terça-feira, março 20, 2018

blog.bdcomics.pt - 
A PRÉ-HISTÓRIA DO 'PRIMEIRO SUPER-HERÓI PORTUGUÊS!'
PARTE 1 DE 5
por André F. Monteiro


Quando a sátira de super-heróis (sátira do género de super-heróis e do Estado Novo) de João Leitão saiu em 2015, depois de uma longa "gestação" desde 2011 em que o realizador ainda pensava em fazer uma série de TV para a RTP com o personagem e durante quatro anos promoveu um grande grupo de seguidores pela internet para algo que ainda não se tinha concretizado para além de um trailer de "episódio piloto" para a eventual série, o poster orgulhosamente promovia "O primeiro super-herói PORTUGUÊS!". Embora em cinema obviamente o fosse, pode-se perguntar "é-o realmente?" O grande problema em Portugal nisto como em tanta coisa, é o da 'memória descontinuada', como gosto de lhe chamar: em muitas áreas, não existe uma memória popular e mesmo historiográfica contínua de várias criações numa dada área, impedindo os criadores de se influenciarem de forma planeada por precursores e de se criar verdadeiros "ícones" (pop-)culturais de massas. Não, o Capitão Falcão não é a primeira vez que artistas profissionais criam "a sério" para o público ver um super-herói português. Mas convém definirmos o que entendemos por "super-heróis" e "português" primeiro.


A princípio, o nome "super-herói" pode insinuar por ser um herói como extra de ser "super", que o super-herói tem de ter os chamados "super-poderes", logo uma qualidade sobre-humana. Mas e todos os super-heróis que ninguém duvida de chamar tal que não os têm? (Batman, o Besouro Azul Ted Kord, Homem de Ferro apesar dos "aumentos" tecnológicos que dá a si próprio...) Será o factor comum os fatos extravagantes (com ou sem máscaras) propriamente ditos e as identidades secretas? Onde é que isso deixa, por exemplo, o Homem de Ferro depois de assumir ser Tony Stark (após vários anos em que simulou ser o guarda-costas robô dele) quanto à identidade secreta, ou o casal Luke Cage/Jessica Jones quanto a fato e identidade (embora se deva acrescentar que ela começou por ser "O Poderoso" e ter um fato amarelo garrido com tiara metálica abaixo da carapinha que usava antes do look cabeça rapada, sem máscara mas um ar tão extravagante que não fica a dever ao fato do Super-Homem, e ela começou por ter fato e as identidades secretas de Jewel/Safira e Knightress/Paladina antes de adoptar a persona de detective "neo-noir" sob nome próprio, e depois de casar e ser mãe brevemente é "A Poderosa"). Claro que pode-se discutir se os heróis deste género sem fato não serão desconstruções propositadas do tipo de personagem que deixaram de ser super-heróis propriamente ditos (pode-se discutir isso quanto a Jones ou Cage como quase "recriado" por Michael Bendis). Os fatos dão-nos uma pista: vocês sabem porque a ideia dos fatos surgiu de todo aos criadores de Comics e mesmo bande dessinée francesa do tempo da "Era de Ouro da Banda Desenhada" (anos '30 a 1951)? Para criar a associação deste tipo de heróis com os homens fortes das feiras e circos, que usavam fatos extravagantes e rentes ao corpo, e portanto associá-los a esse tipo de homem muito forte (ao mesmo tempo que a máscara, além das razões óbvias, para associar também aos anteriores heróis de capa-e-espada e ficção de aventuras afim). Portanto, mesmo que sem "super-poderes", estes heróis claramente eram pretendidos para serem vistos como homens (ou mulheres; lembremos-nos que a paródica "Tornado Vermelho" e as "sérias" Mulher Maravilha e a primeira Canário Negro, todas da DC, recuam à "Era de Ouro"), e não admira pensando como, por exemplo, o Batman é tão bem preparado mental e fisicamente (além de ter uma engenhoca e um plano de contingência para tudo) que praticamente podia ter super-poderes mesmo. Concluindo: o super-herói é um ser-humano forte (mental e/ou fisicamente) acima do normal com ou sem fato/máscara com identidade pública enquanto super-herói conhecida pelo resto da sociedade (que pode ser uma identidade de herói que esconde uma pessoal secreta, ou serem ambas conhecidas).
Quanto a "português", estamos a falar da personagem ser (etnicamente? De cidadania?), do(s) autores (por etnia/ou nacionalidade?) serem Portugueses, do território de actividade do personagem ficcional ser português, de trabalhar ao serviço de Portugal, ou de ser personagem de autor nascido em território português? Bem, para a variedade de sentidos que "super-heróis PORTUGUÊS" pode tomar, para o caso vamos escolher cobrir todas estas opções. Para definir como de actividade em Portugal, uma breve passagem não chega (por isso excluímos a passagem de fim de estória do ser extra-dimensional Visão da Timely Comics, precursora da Marvel pelo Portugal da II Guerra, Namor ou Aquaman nas águas territoriais ou até solo de Portugal, etc.), mas poder-se identificar como tendo longa actividade cá, até ao serviço das autoridades nacionais (e pode identificar-se um herói em cada caso, como mostrarei aqui). Com custo, se pode identificar um autor não-nacional mas nascido no que contaria como território nacional, a cuja "pena" se deve a criação de um super-herói digno de nota já com várias décadas de existência. E há ainda alguns casos de personagens de nacionalidade vaga criadas por autores portugueses. Mas vamos focar-nos especialmente nos casos de autoria étnica/cidadã portuguesa com personagens portuguesas elas próprias. Mas comecemos por figuras que só discutivelmente podem ser chamadas de super-heróis mas porém são muito importantes para o caso do Capitão Falcão.


As falsas BDs do Capitão Falcão, o Major Al...vega, e obra de C. A. Santos

Para quem viu o trailer do "piloto" do Capitão Falcão de 2011, viu no início (como parte da simulação de um verdadeiro super-herói salazarista, 3 imagens de BD com uma figura de máscara e bigode que se supõe ser o nosso Capitão, e outra mais nova só de máscara que se supõe ser o ajudante Puto Perdiz. Quando começou a promoção do projecto depois do piloto exibido no festival Motel X (Lisboa) e depois no Fórum Fantástico (idem Lisboa), Leitão contou que uma assistente de produção insistia que tinha sabido por família da personagem pela BD desta. Ora, obviamente (a não ser trolling propositado da assistente) isto era confusão: o Capitão Falcão foi fruto da mente insanamente pop de Leitão, não havia BDs anteriores nenhuma. Mas o equívoco tinha razão de ser: as BDs antigas que abriam o trailer existiam... só que as mascarilhas e bigodes eram acrescentos da produção para a ideia propositada de criar o que seria um super-herói de propaganda salazarista, se tal tivesse sido feito.
A imagem do heróico Capitão de espingarda disparando enquanto sorridente liderava tropas em frente e outra a lançar-se do alto propositadamente, derrubando um vilão a quem se refere como "RATO IMUNDO" vêm da série do Major Alvega da revista Falcão. Outras duas imagens de BD editadas com máscaras vinham de outra fonte, que veremos a seu tempo. Ora, o Major Alvega pode ser de uma eficiência e heroísmo espectaculares, mas como o piloto Michel Tanguy da BD franco-belga (a figura mais similar ao Alvega da BD), Indiana Jones ou o 007 (as figuras mais similares à forma como é retratado na série da RTP mais familiar às gerações depois dos meus pais), não chega "bem" a super-herói, embora isto seja discutível. Mas pela inspiração (e ajuda) que deu à criação do mythos da existência anterior do Capitão Falcão, merece figurar na "pré-história" do "primeiro super-heróis PORTUGUÊS".
A aparição de Ricardo Carriço, o Major Alvega da série da RTP dos anos '90, como um colega prisioneiro de Falcão (quando é atingido pelos "raios comunistas" e preso para evitar que se torne uma fragilidade para o regime), o Major Al...berto, é o reconhecimento que a ligação é mais do que a necessidade de quadrado de BD para fazer a montagem. Afinal, como Falcão é o "super-herói fascista" que a ter mais de uma aventura lutaria (por admissão de Leitão e do seu elenco desde quando não havia filme nenhum) contra todos os inimigos mundiais do seu movimento político (comunistas acima de tudo, mas também republicanos liberais, monárquicos, feministas, anticolonialistas, estrangeiros incluindo Americanos, homossexuais, criminosos e "subversivos" em geral). Basicamente, o inverso do anti-nazi-fascista Alvega (que, pela quantidade de vezes que falava do fundo "luso-britânico", só partilharia o patriotismo, aqui de versão anti-nazi-fascista, com Falcão). No início do filme do Capitão Falcão, também surgem umas imagem ilustrando o filme como se fossem de alguma BD relacionada com o Capitão Falcão anterior inexistente, que são na verdade da colecção de cromos sobre a história ilustrada pelo artista Carlos Alberto Santos, representando coisas como a Península Ibérica, o Conde D. Henrique (Afonso Henriques até faz parte de uma visão do Capitão), a escolha destes cromos não sendo só ilustrativa mas parte de um tom propositado para o seu super-herói procurado por João Leitão, o estilo de Alberto Santos em BD e ilustração em geral sendo capaz segundo Leitão de transformar Camões numa espécie de 007.



PARTILHAR:

Partilhar :

{ 0 comentários... ler em baixo ou comentar }